sábado, 29 de janeiro de 2011

Bs As me dá boas vindas

O bêbado rastejante não me viu. Eu queria que ele tivesse me visto, mas não viu. Ou, se viu, não vai lembrar. Havia acabado de chegar e, faminta, procurava nos arredores da Ayacucho um restaurante decente para comer. A fome me roía as tripas, mas fui capaz de esquecê-la ao ver os muros das ruas, as placas, ouvir aquela música diferente de Buenos Aires. E um calor que chega a ser elegante, posto que não é esbaforimento. Foi antes de chegar na Corrientes que vi o tal bêbado. De tão podre e trôpego, estava sendo carregado por um amigo. Aliás, não parecia um amigo, mas um solidário de meio de rua - adoro os solidários anônimos, essa gente que ajuda os outros no meio da rua, a troco de nada. Nunca consegui ser uma.
O sujeito era velho, meio barbudo e grisalho. Começou a procurar algo no bolso. Tateava a calça com a mesma sofreguidão com que caminhava, e eu fiquei com medo. Fiz um cálculo rápido: se fosse um assaltante, havia grande chance de ser eu a vítima. Mulher, sozinha, sabe como é. Ele certamente estava tateando a calça em busa de um estilete, uma faca, uma arma pequena. Me afastei.
Já estava alguns passos distante quando escutei o som. O sopro de uma gaita. O trôpego conseguiu tirar do bolso uma gaitinha e soprar. O cara tocava com a força e o encanto que suas pernas jamais voltariam a ter. Ele executou toda uma música, inteira, sem erros. De pé, ao lado de uma árvore. Ele não tinha força para mais nada. Só para aquilo.
Agora, aqui no sofá, lembro de um ensaio que acabei de ler e fala sobre um pianista completamente apático, que se transforma completamente ao ter na sua frente o seu instrumento. Quantos de nós, completamente apáticos, nos deixamos transformar apenas em determinadas situações? Mexo no travesseiro. Amanhã, quem sabe ele não está lá de novo. Bêbado. O gaiteiro da Ayacucho.

Um comentário:

Lia disse...

fiquei com vontade de ouvir a música que o bêbado tocou.