quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu, Sean, as formigas

Venho por meio desta declarar meu apoio incondicional ao menino Sean.
Não me meto em imbóglios jurídicos e diplomáticos, mas é impossível ficar inerte diante da ameaça de levarem o menino Sean para os Estados Unidos. Essa não é apenas uma questão de direitos da família: é uma questão poético-ecológica, que me afeta profundamente.

Li no jornal, na semana passada, algumas declarações do menino a um bravíssimo comitê de psicólogas: "Na última vez em que estive na casa do meu pai americano, fiz muitas coisas. Joguei vôlei, basquete e joguei formiga na teia de aranha". Pois bem. Se o menino Sean retorna à terra natal, com quem mais eu vou dividir o meu gosto por atirar formigas na teia de aranha?

Tenho uma afeição especial por formiguinhas. Tão pequeninas, tão delicadinhas. Andam em fila, as trabalhadoras. Me demoro a observá-las carregando com esforço um pedaço de folhinha verde, que irá alimentar o bando inteiro. Com carinho e amor, escolho uma delas, tiro a folhinha da carcaça, dou um ligeiro peteleco. A formiga não fica desnorteada, continua andando, embora tenha eu certeza de que está puta comigo. As formigas são assim, não se expressam muito, bichinho orgulhoso. Com algumas, eu disfarço: tiro a folhinha, finjo que não fui eu, vou dar uma volta, até assobio uma canção antiga. Certas formigas são espertas, não posso dar mole.
Atirar formigas na teia de aranha, menino Sean, anda difícil hoje em dia. É preciso juntar duas coisas quase em extinção. Meus criadouros de teia de aranha têm sido lamentavelmente atacados por desinfetantes de última geração, verdadeiras bombas químicas, as pessoas são maldosas, menino Sean. Nunca mais pude treinar fazer uma deliciosa bolotinha de formiga, calcular a força e atirar com precisão no meio da teia de aranha, de modo que ela grude pelas patinhas e fique ligeiramente inclinada, com a cabeça na direção do chão.

Portanto, menino Sean, fiquemos os dois aqui, atirando formigas. Em Botafogo ainda há algumas teias.

Um comentário:

Lia disse...

coitadas das formigas, clara...