Tinhas as unhas bem lixadas, cuticuladas e pintadas de um branco fechado. Um anel em cada dedo, de prata barata, embora bem polida, e pedraria ostensivamente falsa, que preenchiam e pesavam não em apenas um, mas nos dez dedos das mãos. Entrou no ônibus pela porta de trás, abraçando uma caixa como um bebê. Vendia canetas.
Havia do tipo executiva, de um metal leve; do tipo escolar, com borracha para amortecer a pegada, do tipo compacta, que se leva na carteira. Por algum motivo, achou que eu deveria gostar da multicor. Olhou para mim enquanto, com sua voz grave e a barba por fazer, anunciava a facilidade da caneta, que era um tipo econômico, quatro em um, que daria a praticidade de ter um colorido para a letra e outro para o sublinhado, e era de fácil manejo - ele demonstrava estalando os cliques, azul, verde, vermelho, preto.
Ele não sabia que eu não pinto a unha de branco, só de variações em torno de vermelho. E que não consigo escrever com canetas, por mais que tenham cores. E também não poderia imaginar que fiquei obcecada com a sua figura, em que a mão não condizia com o rosto, e com seu modo sutil de ficar um pouco incomodado com a falta de atenção dos passageiros, mas não o suficiente para se calar.
terça-feira, 18 de maio de 2010
As unhas, as canetas
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Clara
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11:45
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Marcadores: Botafogo
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Mais sobre Botafogo, canto do mundo:
Parece que vai acontecer um crime a qualquer momento, nessa parte perto do cemitério. Oficinas mecânicas, restaurantes PFs, prédios com senhoras olhando os túmulos, carros buzinando incessantemente. Esquartejamento? Nunca soube. Mas muito provável.
Chama-se baixo Botafogo o lugar cheio de bares perebas ali no final da Voluntários. Foi lá que um amigo teceu comentários sobre a estreita relação entre Copacabana e Botafogo. Entendo. Um pouco. Ainda acho Botafogo mais tímido, mas decadente, mais cinza no interior e ensolarado nas laterais e, portanto, mais interessante.
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Clara
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17:00
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Marcadores: Botafogo
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Comentarista desconhecido
Vira e mexe recebo uns comentários muito bacaninhas de gente que não conheço e que acompanha os textos que esparsamente publico nesse blog. Gente que lê, escreve para mim, e normalmente diz que gosta das minhas linhas. Eu, mal-educada que só, não costumo responder. (A minha mãe me educou direito, eu fiquei estragada por conta própria.)
Então aqui vai um post em homenagem ao comentarista desconhecido. É bom ler os comments de vocês. Gratidão. Mesmo. É um post tipo uma estátua do soldado desconhecido, sabe? Então. Uma estátua para vocês. No meio da praça.
Muito legal saber que tem alguém que não conheço do lado de lá da janela.
*
(Hoje acordei de bom humor e, por incrível que pareça, durou até agora.)
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Clara
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14:54
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domingo, 4 de abril de 2010
Ameixas
Não aprecio as ameixas assépticas do supermercado. Prefiro as da feira, que já vêm com micróbios em quantidade adequada, cantadas baixas e aumento de autoestima. Por favor, pese para mim duas dessas, moço. Não precisa embalar a vácuo.
*
Três frases para um domingo:
Saudade perfumada > expressão em uma música do Tom Zé
Tradição embalsamada> expressão na mesma música do Tom Zé
Parece que foi em outra vida, mas foi nessa > Trecho de diálogo entre os dois protagonistas do "O segredo dos seus olhos", que poderia ser completado com "ainda dá tempo", mas, ainda bem, não foi, tem gente que sabe dialogar tirando belos finos dos clichês, e assim eu aprecio muito, respeito e me refestelo no sofá.
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Clara
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14:21
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Marcadores: Cotidiano
Barco é berço de adulto.
Vou instalar um no meu quarto.
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Clara
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14:18
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Marcadores: egotrip
segunda-feira, 29 de março de 2010
Na qualidade de ateu por imposição e opção, não creio em nada desde sempre. Ser ateu, ao contrário do que muitos pensam e pregam, não é opção, é falta de. Quando nunca se acreditou em nada, fica difícil passar em crer em alguma coisa. É como uma operação mental que não se completa, posto que não foi feita na idade certa. Crer, para um ateu legítimo, não é escolha, é simplesmente uma impossibilidade. Portanto, não acredito em nada faz muito tempo. E também não suporto a idéia de passar embaixo de escadas.
Havia muitas escadas em Botafogo nessa segunda. No trajeto entre o suco de laranja e o trabalho, precisei desviar de três, para não passar embaixo. Havia mais escadas do que o normal. Não que eu conte escadas nem nada, mas desvio de todas, então tenho mais ou menos uma média por ruas. Botafogo é um bairro de construções: há muitos prédios sendo levantados por todo canto, e todos, os novos também, se erguem com o mesmo desencantamento de todo o resto do bairro, mantendo a aura de algo antigo que nunca vai se revitalizar, e que talvez - mas muito talvez - tenha o nome de decadência. Botafogo é o único bairro da Zona Sul em que ainda são construídos muitos novos prédios, principalmente na região mais cinzenta, a perto do cemitério. Uma lambança de operários, máquinas de rodar cimento, telas de proteção, lá vem o novo, olha o novo chegando. E Botafogo é o único bairro carioca que tem um cemitério e uma enseada. De perto do cemitério, não é possível nem de muito longe imaginar a estupidez da beleza da enseada.
Quando desviei da terceira escada, quase caí na rua. Vou ser atropelado, vou ser atropelado, pensei, quando vi a mão do motoboy puxando. Cheguei a cair, mas
((pronto, consegui começar. Vou terminar em outro canto. Eu sabia que o que estava atrapalhando era o word, que a plataforma do blog ia ajudar. Arrá! Agora vou seguir escrevendo.))
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21:35
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Marcadores: Botafogo
quarta-feira, 24 de março de 2010
Mais um pouco de Botafogo
Em Botafogo, tudo é menor do que deveria ser.
Em Botafogo, não precisa haver fumaça para se ter a sensação de que estamos enfumaçados.
E, embora haja muitos prédios coloridos, varandas rústicas, belas casas do século retrasado, tudo parece cinza. Não precisa haver cinza, de fato. Seria uma redundância. Botafogo é cinza sem ser.
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Clara
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11:06
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Marcadores: cidade
terça-feira, 23 de março de 2010
Resenhas artísticas e intelectuais desse final de semana:
Deixa ela entrar: filmaço
Um homem sério: filmaço
O segredo dos seus olhos: não vi. Me roendo de.
Sunset Boulevard: pirateei três vezes. Presenteei amigos de trabalho.
Voluntários da Pátria: engarrafada mesmo no final de semana.
Pôr do sol no Arpoador: a existência vale a pena.
Desautorizada: palavra que ficou rocamboleando na cabeça.
Onetti: É o próximo.
Franny and Zooey: inspirador, desde sempre.
Resenha da segunda-feira:
A Net, pior empresa de todos os tempos, me cortou e não religa de jeito nenhum. Sem telefone e sem internet, fui obrigada a começar um conto.
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Clara
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10:56
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Marcadores: Cotidiano
sexta-feira, 19 de março de 2010
ready made
Se as palavras se tornam interessantes, ei-la, a literatura. Palavra que não emociona não interessa. Simples assim. Lição de escola de letras? Não, de pedinte carioca.
Já recebi várias vezes, em ônibus, na rua, um papelzinho assim:
Sou surdo e mudo. Não tenho trabalho. Qualquer trocado ajuda. Deus lhe pague.
Eis que ontem, nos Correios da Praia de Botafogo, um homem limpo e bem vestido me entrega em um A4:
Sou mudo. Meu tio alcoolizado me cortou metade da língua com uma faca afiada quando eu era criança. Eu escuto, mas não consigo falar. Por favor me dê dinheiro. Quero comprar uma carrocinha para trabalhar como pipoqueiro.
Incomparável. Há conflito, objetivo, história, detalhes na medida. Um homem sem língua que sonha ser pipoqueiro.
E também há muita miséria humana.
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Clara
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11:37
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