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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O tapa

- É, eu sei.

A verdade é que eu estava sem saco para explicar direito. Dizer que eu praticava arte marcial, que vivia cheia de hematomas, que ela não se preocupasse, que não machucava muito não, que a perna e no braço estavam sempre roxos, eu só queria que ela me depilasse rápido, embora estivesse aproveitando o ar-condicionado.

Ela puxava a cêra delicadamente, mas ainda assim doía. Fechei os olhos para ver se distraía a dor com alguma besteira de pensamento, isso funciona muito, serve pra qualquer coisa. Levei um susto quando escutei aquele sussuro no meu ouvido:

- Eu também gosto de fazer apanhando.

- Hã?

- Olha só.

Me mostrou a nuca e o antebraço, marcas de roxo esparramado. Pensei em revelar que só gosto de luta no do-jo, mas o caminho não parecia ter volta.

- Foi meu marido que veio com essa idéia. No começo eu não acreditava que não doía. Mas agora eu nem sinto nada. Parece carinho, né?

Puxou a cêra com mais força. Tive um impulso de berrar, mas segurei, saiu só um grunhido, na verdade abafado pela mulher da cabine ao lado, que berrava sem parar. A depiladora não percebeu. Ainda bem. Não podia me mostrar fraca, ainda mais com uma cêrazinha à toa.

- E você bate no seu marido também?

Silêncio. Peraí, vai dizer que ficou ofendida com a pergunta? Eu estou aqui, sendo depilada, entregue ao nada, agora responde, po.

- Estou começando a bater agora.

Ela pareceu lembrar de como batia bem e caprichou na puxada. Recolhi todos os urros que quis dar para o útero, não saiu nenhum. Eu não sou seu marido. Pára de bater em mim. Olha que eu revido.

- E você sabe que gosto? Ele fica submisso. Aceita. Acho que é bom pra ele também. Só tem que não posso dar na cara, senão o pessoal do trabalho dele repara. Dou no braço, na barriga. Comprei umas blusas novas pro Tomás, de manga comprida.

Tomás. Nome de santo.

- O que eu não gosto mesmo é arranhão. Nem soco.

- Golpe de mão aberta espalha mais a força, dói menos. Dá tapa. Soco é mais concentrado.

Juro que não queria dar pitaco. Só queria escutar a mulher. Mas já tinha falado.

- Tapa assim?

- Não, flexiona um pouco os dedos. O polegar fica junto. Agora arqueia. Isso. Se quiser usar o golpe na vertical, tem que fazer assim, ó. E na garganta é assim. Só não pressiona demais, porque isso sufoca rápido.

Ela ficou treinando na minha frente, enquanto procurava a pinça. Uns tapas sem forma, sem força, sem integração com o resto do corpo. Tapa bem dado não é assim, minha querida, presta atenção, tem que vir mais de longe, conserta essa posição, senão não faz efeito, isso aqui não é nada, nem merece o nome de tapa, tive vontade de corrigir, foi então que não sei porque, mas não sei como mesmo, eu levantei e dei um puta tapa nela. Esborrachado, no meio da cara.

*
(continua no meu word... não consigo escrever/publicar coisas maiores aqui nesse editor!)

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobre rímel e arte marcial

É preciso uma certa teimosia para ser karateca, principalmente karateca-mulher. Primeiro, temos que assumir a vontade de enfiar a porrada em todo mundo, o que choca muita gente. As pessoas não costumam entender que a vontade de bater é algo que convive muito bem com o gosto por batons e perfumes marcantes, só não costuma combinar com a afinidade por literatura cor-de-rosa. Além disso, é preciso uma certa teimosia com a aprendizagem da própria técnica, porque subitamente ficamos sabendo que temos dois braços e duas pernas e que - incrível! - os movimentos entre eles podem ser combinados e até controlados pelo cérebro. Hoje em dia eu dou graças por não ter nascido polvo.

Os chutes circulares são os mais difíceis. Se chamam Yoko Geri Keage (chute lateral ascendente) e Yoko Geri Kekomi (chute lateral em penetração). No Keage chutamos o rosto ou o peito do adversário, partindo em seguida para uma seqüência de pancadas, como por exemplo a quebra da clavícula, que aprendi dia desses com muito entusiasmo. Já no chute Kekomi o objetivo é penetrar o quadril do oponente, arrasando com tudo o que possa existir naquela região. A questão é que é necessário um controle absurdo da perna para isso: temos que ter força, precisão, tentar não estropiar o joelho, não cair, gritar para liberar a energia na hora certa e ainda sorrir delicada e sarcasticamente para o adversário (descobri há pouco: o sorrisinho é uma arma letal a ser combinada com os chutes).

Quanto mais difícil fica, mais eu me empenho. Adquiri alguns manuais e tenho treinado movimentos nos pontos de ônibus e nas filas para comprar ingresso pro festival de cinema. Acho que para completar só me falta comprar um rímel à prova d´água, pois tenho suado muito nas aulas de karatê.