sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Aqui nessa cidade existem fiambrerias, lojas que vendem queijos, presuntos e afins. Coisa rara no Rio, em que os mercados há tempos reúnem o que antes se dissipava em pequenos açougues de bairro, delis, armazéns.
Ontem, eu estava na vitrine de uma fiambreria, exposta junto com nacos de carne, pedaços de queijos, umas linguiças.
Um cliente se aproximou. O vendedor, no balcão, colocou ordem na fila e atendeu o sujeito - que bem podia ser uma mulher, não lembro bem, não havia ângulo para ver e o barulho dentro da vitrine é grande. Eu estava ali, quieta, no meu papel de Clara-presunto, as pernas nuas, os pés descalços. O vendedor ligou a máquina de corte e abriu a porta da vitrine.
Eu não sabia o que o cliente havia pedido.
Então acordei.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

É proibido nos esquecer, dizem as faixas.

Gosto de ver a concentração para piquetes no metrô. Sob a terra, são só homens comuns que portam bandeirinhas. Em frente à casa rosada, se transformam em militantes com passado, insatisfações e desejos. Destemor.

Aqui eles aprenderam que cinco homens são capazes de fechar uma rua. Mesmo quando não é carnaval.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Diferenças

Golpeie a porta e será atendido.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

The End

São Paulo, nunca vi acabar.
O Rio, mais ou menos.
Mas Buenos Aires tem fim.
Senta de frente pro rio e olha: ali do outro lado já não é mais Buenos Aires.
Bate um alívio ter final. Todas as cidades deveriam ter final assim.
Sobem créditos.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Descarrilhar

Hai Kais ruins e irresponsáveis, porque o negócio é descarrilhar.

Parillada

Céus, como é divertido
ter um garçon
como amigo

*

Paixão nipônica

Por mais que te ame
sua cama
é de tatame

Ruídos

Um trem passa. Um homem grisalho, que está em uma rua sob o trilho do trem, protege os ouvidos ao escutar o estrondo e grita: meu deus! Essa é a primeira cena de O último tango em Paris. E é mais ou menos o que tenho vivido por aqui. Só que não tapo os ouvidos.
Estou especialmente sensível a barulhos, ruídos, sons. Tudo me desperta a atenção. É uma sensibilidade extra, que jamais tive. Quando era criança, passava na TV a propaganda do Sonic 2000, um aparelho auditivo. Aparecia uma velha decrépita, colocava o aparelho e falava: com Sonic 2000, posso escutar o barulho de uma agulha caindo do outro lado da sala! Eu estou assim.
Vou fazer uma lista dos principais barulhos que escuto aqui:
- talher batendo
- porta de casa no vai e vem
- vizinha mexendo no varal
- carros hesitantes entre dar a largada ou não
- homem da dedetização aplicando o fumigador
- cravinho explodindo
- bip
- de donde sois?
- bip
- x (x é quase um trem)
- calor (sim, calor faz barulho)
- risadinhas baixas (não ouvi nenhuma alta)
- unha do pé crescendo
- pro no tienes accento brasileño
- bip
- protesta!
- contra el govierno!
- caminhão de lixo
- tango ao fundo
- bip

domingo, 30 de janeiro de 2011

Varandas

Grande erro nunca ter tido uma varanda. Grande erro nunca ter tido uma varanda no sétimo andar.
Essa varanda é antiga, como o prédio. Pequena, com um gradil geométrico - mas de ferro, e não desses laminados modernosos. O chão é de lajotas avermelhadas. A porta de entrada é de correr, mas mal corre. E eu gosto que seja assim, meio emperrada. Daqui vejo a rua, com seus bolos de sacos de lixo dominicais. Daqui vejo a caquética janela do meu vizinho, unidas uma parte a outra por um fio elétrico velho. Daqui reconheço calcinhas gigantescas no varal de chão da vizinha, que usa a sua varanda para secar roupas. Daqui escuto mamãe me chamando lá de dentro.
- Você já comeu? Não estava com fome?
- Mãe, o que você está fazendo aqui? Eu estou sozinha nessa cidade. Já não te disse isso? Estou sozinha. É uma questão de lógica. Você não pode estar aqui. Você não está aqui.
Correm uns fios elétricos pela parte externa do prédio, e esses eu também vejo daqui da varanda. Os carros lá embaixo passam como se quisessem correr, mas algo os aprisiona. As leis de trânsito, talvez. Mas só talvez.
- Está na mesa.
- Não está. Você não está aqui.
Olho para os outros prédios, as caixinhas quadradinhas, e vejo as outras varandas. Quase todos têm varandas. Balcon, como se diz por aqui.

O prédio, uma caixa. A varanda, uma saída para o respiro. Já reparou em gente saindo de casa e entrando na varanda? Mal pisam na varanda, aquela saliência aérea, as pessoas costumam buscar algo com o olhar - uma nuvem, um carro mais apressado, um pega ladrão, uma nuvem no céu. Mal saem na varanda e gesticulam diferente, espreguiçam, se liberam de alguma coisa.
A varanda é o pequeno espaço em que se pode criar. É por isso que estou nela agora. E vou varandear por muito tempo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Bs As me dá boas vindas

O bêbado rastejante não me viu. Eu queria que ele tivesse me visto, mas não viu. Ou, se viu, não vai lembrar. Havia acabado de chegar e, faminta, procurava nos arredores da Ayacucho um restaurante decente para comer. A fome me roía as tripas, mas fui capaz de esquecê-la ao ver os muros das ruas, as placas, ouvir aquela música diferente de Buenos Aires. E um calor que chega a ser elegante, posto que não é esbaforimento. Foi antes de chegar na Corrientes que vi o tal bêbado. De tão podre e trôpego, estava sendo carregado por um amigo. Aliás, não parecia um amigo, mas um solidário de meio de rua - adoro os solidários anônimos, essa gente que ajuda os outros no meio da rua, a troco de nada. Nunca consegui ser uma.
O sujeito era velho, meio barbudo e grisalho. Começou a procurar algo no bolso. Tateava a calça com a mesma sofreguidão com que caminhava, e eu fiquei com medo. Fiz um cálculo rápido: se fosse um assaltante, havia grande chance de ser eu a vítima. Mulher, sozinha, sabe como é. Ele certamente estava tateando a calça em busa de um estilete, uma faca, uma arma pequena. Me afastei.
Já estava alguns passos distante quando escutei o som. O sopro de uma gaita. O trôpego conseguiu tirar do bolso uma gaitinha e soprar. O cara tocava com a força e o encanto que suas pernas jamais voltariam a ter. Ele executou toda uma música, inteira, sem erros. De pé, ao lado de uma árvore. Ele não tinha força para mais nada. Só para aquilo.
Agora, aqui no sofá, lembro de um ensaio que acabei de ler e fala sobre um pianista completamente apático, que se transforma completamente ao ter na sua frente o seu instrumento. Quantos de nós, completamente apáticos, nos deixamos transformar apenas em determinadas situações? Mexo no travesseiro. Amanhã, quem sabe ele não está lá de novo. Bêbado. O gaiteiro da Ayacucho.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dylan, por Hammil

Fiz uma coisa antiga: li um encarte de CD. Um texto do Pete Hamill em um encarte de um CD do Bob Dylan. Gostei muito e traduzi um pedaço (traduzir não é a coisa mais simples do mundo). O texto do Hamill fala sobre como, na turbulência dos anos 60, o Dylan conseguiu fazer uma poesia diferente, simples, verdadeira. E como sua arte resistiu ao tempo, por um motivo único: é bonita. Aqui vai um pedacinho do texto do Hamill. E viva Dylan e as respostas que sopram ao vento.

*

Pintores deixaram os cavaletes para rabiscar a sua inocência em paredes e manifestos; romances serviram como quartos arrumados para a ideologia.

Pobre America. Terra em que os poetas morreram.

Exceto Dylan.

De todos os nossos poetas, Dylan foi o que melhor pegou o mar turbulento e colocou em um copo. Desde cedo, ele nos avisou, ele nos deu voz, ele disseque a chuva pesada ia cair.

Então esqueça os intelectuais que reduzem a pó as rimas de Dylan. Lembre que ele nos deu voz. No tempo em que a nossa inocência morria para sempre, Dylan transformou esse momento em arte.

O milagre é que ele sobreviveu.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Hino dos babacas
(cantar na melodia do hino nacional)

Eu vi na Guanabara o babaca
Com uma loira burra ultrajante
O babaca era o cara que eu estava
Há menos de cinco minutos antes

Se o babaca
É um babaca
Nem milagre poderá salvar a raça

Tu tens muita
Mediocridade
E não me inspira nem mesmo mais um porre

Ó idiota
E calhorda
Vê se morre

Babaca, escroto intenso, energúmeno
Um cafajeste que a tal nível desce
Tua cara de pau risonha e límpida
Com a mesquinharia resplandece

Pequeno pela própria natureza
És um calhorda, impávido beócio
A tua covardia é de tal grandeza

Não me dói nada
Entre outros mil
És tu mais um
Fora da jogada

Eu te mandei pra puta que o pariu
Ó babaca-imbecil